segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pai

Se o meu pai soubesse que ia morrer (sabia, seguramente, mas nunca acreditou), se eu soubesse que ele ia morrer (sabia, seguramente, mas quando acreditei já não nos conseguíamos ouvir) e eu e ele nos dessemos a essas coisas (que não dávamos! Falar de coisas tristes nunca foi o nosso forte. Continua a não ser o meu…) o que diríamos um ao outro? Eu tinha 18 anos. Dir-me-ia que acreditava em mim? Que eu ia ser feliz? Que a vida era maior do que o que eu conseguia, naquele momento, alcançar? A ultima vez que choramos juntos foi num dia do pai. Eu e a minha irmã demos-lhes um postal de amor, ele leu e chorou. Foi o ultimo que lhe demos. Também choramos juntos quanto ele recebeu os resultados de um exame e mo contou. Acho que foi a única vez que choramos realmente juntos, num abraço. Também não eramos dados ao choro ou a manifestações de fragilidades. Eramos e eu continuo a ser, eternos otimistas. Chorar sobre o que ainda não é certo, nunca fez sentido para nós. A queixa, o lamento, as dores, também nunca foram coisas que gostássemos de partilhar. Portanto, sofremos a doença e a expectativa da morte, em silencio. Em esperança. Em milagre (que não aconteceu, naturalmente. Mas continuo, não percebo como, a acreditar. Cada vez menos, mas ainda a acreditar). Gosto de pensar que me diria que gosta de mim. (isso eu sabia, sempre soube, um amor infinito, demonstrado todos os dias. Nisso, amar incomensuravelmente os filhos (as filhas) era mesmo bom. Eu também) Outro dia, encontrei um amigo dele. Olhou para mim com lagrimas nos olhos. Olhou para os meus filhos, como lágrimas no coração. Disse-me que tinha saudades do meu pai. Passados 30 anos, continua com saudades. Era boa gente ele. Dir-me-ia que gostava de mim. Que eu protegesse a minha mae e a minha irmã. Que amasse a vida como ele amava. Que fosse feliz como ele era. Que lutasse como ele lutou. Que encontrasse um bom marido. Que fosse capaz de criar bons filhos. Que sempre que caísse, me levantasse. Que fizesse o bem. Que fosse imensamente feliz na vida que escolhesse para mim. Que fosse, como ele, boa gente. Se o meu pai soubesse e acreditasse que ia morrer, ter-me-ia dito que tudo, no fim, acaba bem. E que não acaba bem, é porque ainda não chegou ao fim (não era brasileiro, mas nisto, bem podia ser). Não disse, mas eu sei que era o que queria dizer. E acredito.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Não tenho dito nada. Nem a mim mesma. Mas tenho andado a pensar que os meus filhos mais velhos já vão fazer 11 anos. Ontem, na cama, de mãos agarradas (não é fácil agarrar três filhos, mas não é impossível – braço por cima de uns para cehgar aos outros, são mãos e abraços entrelaçados e o calor da mãe chega para todos), disse-lhes: Pedro e Miguel, vocês já vao fazer 11 anos… E eles, já quase a dormir – hum???? A mae deve estar parva, claro. é obvio que vão fazer 11 anos e isso é normal, acham eles, que estão mais preocupados com a festa, com os amigos que vão convidar, com os presentes… Eu? Preocupada com outras coisas. Não é bem preocupada, é mais um tremor estranho na barriga… porque tenho 42 anos e vou fazer 43 (quando é que eu deixei os 30??????) é certo, mas sobretudo porque eles vão fazer 11 anos. A voz está a mudar. Os pés calçam 37/38. Olham para mim quase diretos nos meus olhos e seguramente que dentro de um ano vão estar maiores que eu. Têm pelos a nascer por tudo quanto é lado. cheiram a sovaco e a chulé. São opinativos (muito!!!). fazem apresentações orais na escola (é impressão minha ou eu só fiz isso no secundário?). já não precisam da minha ajuda para powerpoints e já sabem estudar sozinhos. Não gostam de muitos beijos em publico. Vestem roupa do mesmo tamanho que eu. Cresceram. E isso, tem tanto de maravilhoso como de assustador. É maravilhoso ver o quanto desabrocharam em inteligência e bondade. São crianças boas e felizes, que sempre foi o meu grande objetivo enquanto mãe. Continuamos unidos e a cuidar uns dos outros. Mas cresceram. E é assustador vê-los fugir do meu encantamento. O João continua a ser o meu bebé. Entro na cama para lhe dar um beijinho o rosto dele ilumina-se como se não houvesse mais ninguém no mundo para além de nós. Continua encantado comigo, encantado em mim. O Pedro e o Miguel cresceram. Sei que me amam. Muito, não é isso que está em causa. Mas já não estão só dentro de mim. Têm um mundo todo cá fora, dentro deles, fora de mim. E é tão, tão recompensador perceber que são equilibrados, sensatos, que gosto do mundo que criamos para eles e que eles tão bem adaptaram a si… E, ao mesmo tempo, não deixa de ser, apenas, triste. A mãe deve mesmo estar parva, mas o encantamento vai passar que eu sei. Vou deixar de ser a mulher da vida deles e passar a ser apenas a mae. E isso, por muito natural que seja, dói. Não é sofrer por antecipação. É antecipar para não sofrer tanto Logo à noite, vou voltar a aconchega-los como se não houvesse amanhã. E enquanto durar este abraço, está tudo bem!

quinta-feira, 9 de junho de 2016

os dias sucedem-se com sempre muitas tarefas e atividades mil e de repente passam-se meses sem nada escrever. É assim que também se passam e passaram os dias até chegar a hoje, 09 de Junho de 2016, dia da festa de finalistas do p. e do m. Dia importante este! para eles, que não o vao esquecer, muito para mim, que os lembro a entrar na mesma escola, com 2 anos, mochilinha às costas, olhos cheios de apreensão e curiosidade. Eram esses dias, dias em que pediam a minha mão. hoje, sou eu que peço a mão deles e, a mais das vezes, quando a dão, é à noite, no silencio do quase sono, em que os mimos são permitidos em miúdos de dez anos, prestes a entrar na pré-adolescência. São diferentes do que eram, estes meus filhos. Mas, na sua essência, são o que sempre foram: os meus filhos. que cresceram em sabedoria e bondade. Que crescem em mim todos os dias como se o amor de mae fosse uma bola de encher que nunca atinge o ponto de tensão, que nunca corre o risco de rebentar. o meu amor de mae é este amor físico de que tantas vezes falo. de toque e de beijos. de mãos e abraços. de perfumes! conheço o cheiro deles e o aroma do seu respirar. ah... isto de ser mae é estranho. é, realmente, ter o coração fora de nós, a andar ali com cartola e bengala, a cantar e a encher os meu olhos de água... cresceram. etapa da primária concluída, uma nova vem aí daqui a pouco. 10 anos que passaram, literalmente a correr! medo que os próximos dez corram também e eu não consiga agarrá-los, prendê-los, que me fujam sem que eu possa amarrar um fio que ligue o meu coração ao deles e que os obrigue a ficarem sempre em mim! quando é que estes 10 anos passaram?

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

spoiler sobre "lugares escuros" - é favor nao ler quem ainda nao leu o livro/viu o filme


ontem vimos o filme "lugares escuros", baseado no livro com o mesmo titulo, que já li em tempos. É um filme engraçado, bem feito, mas sem a complexidade (julgo que nem era possível de outro modo) do livro. Retiro, do livro/filme, várias ilações, mas a que mais me comove, é o amor da mãe que, em absoluto desespero, contrata a sua própria morte para deixar dinheiro aos filhos (sobretudo a um deles, que precisará - julga ela, de contratar um advogado). Não é sequer uma mae muito afetiva. Não diz aos filhos, pelo menos não muito, que os ama. é um amor terra a terra, um amor sofrido de quem precisa de alimentar 4 crianças, vesti-los, educa-los, penteá-los e, pelo meio, não os deixar fugir do bom caminho. Mas, apesar de ser um amor comedido, é um amor absoluto. de quem dá a vida por quem ama. E eu gosto disso.

Diz-me o j. hoje de manhã abraçado a mim, com a cabeça encostada na minha barriga: - mamã, gosto tanto da tua barriga magrinha, assim lisinha.... e pronto, era só isto. Afinal os filhos também podem fazer maravilhas à nossa autoestima:)
Ora segundo o mais pequeno lá da casa, o pão tem milhaguinhas!:)
Diz o P: - temos mesmo de o corrigir? não pode continuar a dizer isto assim por mais uns tempos?
oh... porque é que eles têm de crescer?????:)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O Meu marido é um super herói


Um destas noites o m. teve um pesadelo. Em resumo, uma bomba ia acabar com o mundo e íamos morrer todos. E o P., não sei bem como, morreu para nos salvar. E isto diz muito sobre o que o P. é para o m. e sobre o que ser pai e filho deve ser. Não há laços de sangue que sejam necessários, quando os laços de amor o são. E diz também muito sobre a mentira que é o mito de pai só haver um. Não há. Pais há aqueles que amam e que tratam os filhos comos filhos. E há muito que o P. é o pai dele, deles. Não que o outro, o biológico, não o seja, que os meus filhos têm a sorte imensa de ter dois pais que os amam mais que tudo, mas este, o Pai meu marido, é um super herói.

É o pai que tira uma semana de ferias para ir sozinho com três crianças para o campismo no meio do nada e que, mesmo com dores de cabeça ininterruptas há mais de uma semana e um tímpano furado (com um pontapé do p. logo no primeiro dia do campismo) não arreda pé e continua a jogar à bola, a fazer grelhados numa botija de gás, a jogar Uno, a dar banhos,  a ir à piscina e a dormir no chão de uma tenda.
E é por isso que não me admira que ele salve os meus filhos (e o mundo por arrasto) num sonho do m. Porque essa é a cara dele. Essa é a missão dele. Ser o nosso super heroi

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Estivemos uma semana de férias.
Sol, praia, piscina. Piscina, praia, sol. E zoomarine.
E pronto, foi a isto que se resumiu a nossa semana visível.
O invisível (ou não tanto assim), foi o amor que cada vez mais sentimos uns pelos outros. Nunca senti os meus filhos tao chegados entre si (para o bem e para o mal, que isto também traz milhentos pequenos atritos) e chegados a nós. muitos beijos, muitos abraços, muito mimo. Muitas piadas, musicas inventadas, risos e mais risos, pés colados, pegajosos, pele molhada, lambidelas, saltos na agua, gelados e gomas partilhados.
Foram umas férias em família alargada (com avó, tios e primo), mas em que estivemos sempre muito nós.
E nós, eu e o meu amor, apaixonados no calor do dia. no calor da noite. no calor da vida. faz amanhã 3 anos que nos casamos e nunca o amei tanto como hoje.

segunda-feira, 23 de março de 2015

e depois de uma noite dormida em casa do pai, pergunto eu ao mais pequeno:
- e então, meu amor, pensaste na mamã?

ele: -  desculpa mamã, mas não me lembrei de pensar em ti...só pensei no P.!

(e pronto... quem diz a verdade não merece castigo...)
Do m: Mamã, como se chama aquele cientista, o frankenstein?
:)


Do p, em brincadeira aos policias e ladroes com os irmãos: Oh, j., não vale a pena teres código na porta porque eu abro com uma cabra ou lá como se diz e entro na mesma!
:)

Não consigo deixar de estar triste.

Devia estar feliz, bem sei. E estou. Mas triste.

Os meus filhos foram à eurodisney. Já chegaram a paris e estão bem. E vao divertir-se e adorar. E eu feliz com isso. E triste porque não é comigo que eles vao adorar.

E já sei que já foram comigo à isla mágica e à Warner bros e que vai ser mais do mesmo, mas mais do mesmo devia ser sempre comigo!

E pronto, era só isto. Vou continuar a ter em frente a mim a foto deles (e do P.) no dia em que fui para a China, vou continuar a olhá-los e a amar aquele sorriso que mais ninguém tem.

Há dias em que isto de ter filhos de um pai biológico que não é o que está ao nosso lado, é uma merda.

E esperar que sexta-feira chegue a correr!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


Ontem estava cansada. Tinha chegado a casa, feito o jantar, croquetes para a festa de aniversario e brigadeiros porque tinham trazido boas notas. Estava cansada, com dores de cabeça e dores de costas. A determinada altura, tive de me deitar na cama para descansar. O P, no noutro quarto a treinar guitarra com o j. no nosso quarto, eu, deitada, o p. e o m.

M: - estás doente mamã?

Eu – só cansada filho

Ele_ deita-te um bocadinho e descansa. Queres um urso de peluche?

Eu – não, obrigada. Deita-te aqui ao meu lado e ficas tu o meu ursinho de peluche

Ele  - (feliz!)

Ele- precisas que te faça alguma coisa?

Eu – não. Vou já ficar boa, só preciso de descansar um bocadinho

Ele- então hoje não nos contas historias?

Eu- hoje se calhar não, não ficas triste?

Ele – não. Só quero que fiques boa! Vou buscar-te uma almofada (e foi). queres mais alguma coisa?

Eu – Não, basta-me ter-te aqui ao meu lado

Chegou o p.

- posso também deitar-me aí mamã?

 - sim, claro

Tens frio? Queres que te vá bsucar uma mantinha?

Eu – vocês têm de ir para a cama, a mamã fica bem

M- não… não te vou deixar sozinha. Fico aqui até o P. chegar.

 

Enchem o meu coração de alegria estes filhos. De uma ternura que eu não consigo dizer. Aconcheguei-os num abraço em silencio. Num silencio feliz e de memoria. São estes os momentos que não quero esquecer.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Do m, abraçado a mim, a propósito de nada:
 - Obrigada por seres a minha mama!

(soubesse ele o quanto eu agradeço tê-lo a ele (e aos irmãos) - como meus filhos...)

Natal


Passamos o natal. A minha época preferida de todo o ano.

Lembro-me dos natais passados em casa da minha avó. Casa pobre, muito pobre, sempre cheia de comida e de animação. Lembro-me das minhas primas, das nossas conversas, dos nossos sorrisinhos de excitação, dos nossos presentes (meias e lencinhos de mão das tias avósJ), da minha agenda, dos presentes dos pais, sempre os mais esperados.

Lembro-me do cheiro das rabanadas, do leite creme feito com água da minha avó (impensável para mim agora, mas que adorava na altura) e da sala minúscula onde cabíamos muitos! Lembro-me, muitíssimo bem (e ouço-o, muitas vezes, em pensamento), do riso do meu pai. Das suas brincadeiras meio parvas com a minha tia  e de como me sentia feliz quando voltava para casa, á noite. Feliz, amada, abençoada.

Hoje, o natal é outro. Não há casa das minhas avós. Não há avós. Não há o meu pai nem a minha tia, nem as brincadeiras disparatadas. Não há conversas com primas. Não há uma das primas. Não há cozinha com chaminé nem o frio da rua ao voltar para casa.

Mas continua a haver mãe. E irmã. E a irmã já tem marido e este ano tem um bebé. O t. que nos assustou imenso durante a gravidez mas que afinal é um anjo de perfeição e serenidade. E há a filha da prima que tem o cheiro dela, e, com muita alegria minha, passa a noite enroscada no nosso sofá. E há o P. que é, em sentido figurado e literal, o nosso pai natal. E há os nossos três príncipes da lua, que são ainda mais doces que o leite creme que a minha avó fazia.

Continua, por isso, a ser natal. Passado na nossa casa, com mesa cheia de família e de amigos. Com o calor da lareira e do fogão sempre aceso. E quando volto, à noite, á cama, continuo a sentir-me natal. feliz, amada, abençoada.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Conversa de almofada, neste antes de adormecer, com o j:
 - mamã, tu vais viver mais de 10.000 anos?
 - sim, filho, muito mais que 10.000 anos!
 - mas a vóvó naná é mais velhinha que tu... quando ela morrer eu vou ficar tão triste...
 - não te preocupes! A vovó também ainda vai viver mais de 10.000 anos!
 - a sério? ufa! que bom!
:)
Ontem os meus filhos foram ao dentista.
Chegados a casa, disse o j.:
-mama, hoje não posso comer porque tenho uma caries!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ontem, ao jantar:
m: mamã, podes por favor descascar-me uma tangerina?
eu - sim, claro
m., depois de comer a primeira: Podes descascar-me outra, mamã?
eu- Sim, filho.
m.: és mesmo a melhor mae do mundo!

(as expectativas deles são tão fáceis de superar... ás vezes, acho que ser mãe é o trabalho com melhor avaliação de desempenho que conheço:))

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Afinal as prioridades nao mudam á medida que o dinheiro cresce...


Outro dia, contou-me um colega que foi feito um estudo sobre o que as pessoas fariam se ganhassem um milhão de euros. A resposta foi:

1.      Comprar uma casa

2.      Uma viagem de sonho

3.      Ajudar a família.

Em seguida, perguntaram às mesmas pessoas o que fariam se ganhassem cem milhões de euros. A resposta foi:

1.      Comprar uma casa

2.      Uma viagem de sonho

3.      Ajudar a família

 

Curioso não é?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

amor sem limites


O que é que nos faz dar tudo de nós aos nossos filhos sem pedir nada em troca? O que nos faz amá-los sem condições ou limitações?

Não sei. Não sei porque é que amo os meus filhos assim. Sei que os amo e pronto.

Sei que aceito as suas imperfeições, as suas incongruências, as suas birras e mau feitio matutino, as suas infantilidades, sem nunca, nunca, os amar menos. Sei que resmungo e que perco a paciência mas em momento algum deixo de ter o mesmo amor, a mesma atitude, a mesma entrega.

Lembro-me de ter sido criança. Lembro-me tão bem de ter sido criança…

De ter manhãs na cama a brincar com o meu pai, de ter a minha mãe a contar-me historias por ela inventadas horas a fio até adormecer. Lembro-me de, já bem grandinha (muito grandinha até), a minha mãe continuar a levar-me (a mim e á minha irmã), o pequeno almoço à cama. Lembro-me do meu pai andar, muito, muito doente, a calcorrear as ruas de santa catarina á procura, comigo, de umas calças de ganga que ele, quase a morrer e a receber subsidio de desemprego, pudesse pagar, sem se preocupar com a minha estupida vaidade e egoísmo. Lembro-me de nunca ter feito a minha cama. Lembro-me de inventar que tinha muito de estudar para não limpar o pó ou outra coisa qualquer. Lembro-me dos olhos imensamente orgulhosos e doces do meu pai a ver-me na serenata com um traje que ele não comprou, porque me foi oferecido, mas que compraria nem que para isso tivesse de deixar de tomar medicamentos. Lembro-me dos vestidos que a minha mãe me fazia e dos sapatos que me comprava, mesmo que a roupa e sapatos delas estivessem quase rotos.

Lembro-me que, da nossa comida, a melhor era sempre para mim. Lembro-me de o meu pai me levar, sempre a pé, aos ensaios do grupo coral, todas as quartas feiras á noite, mesmo em noites de muita chuva e vento, e de ficar sentado, á minha espera, até que acabasse.

Lembro-me que, fizesse eu o que fizesse, fosse eu quem fosse, nunca deixaram, nem deixariam de me amar. Nunca os meus pais me exigiram nada, nunca me pediram nada.

Este é o exemplo que eu tenho. É este o único exemplo que posso e quero seguir.

Não quer isto dizer que haja falta de regras lá em casa. Com 6 e 8 anos  já poem a mesa, levam o lixo á rua, levantam a mesa, tomam banho sozinhos, arrumam a sala quando a desarrumam, vestem-se sozinhos de manhã. Há regras, sim. Colaboração essencial à coexistência de uma família com três crianças. Temos, todos, o nosso papel. O deles, apenas de filhos. Que merecem nada menos do que eu tive. Também não precisam de mais. Basta o que eu tive, que fui uma criança imensamente amada e feliz. Sei que foi essa infância feliz e equilibrada que me permitem ser hoje uma adulta feliz e equilibrada. Sem neuras, sem dramas. Com serenidade suficiente para encarar sempre o presente e o futuro com esperança, com alegria. E com memória do que fez crescer assim.